E não foi só nisso mostrou o cristianismo rei, o respeito que ao santo
tinha, mas também tomou por seu confessor, e conselheiro, e
governando-se por ele nos feitos de maior consideração, e
comunicando-lhe as vilas e cidades, que com o valor das suas armas,
determinava conquistar, das quais alcançou sempre gloriosas vitórias,
ajudado das orações, e conselho do santo Padre (Anjos, 1643: 44a).
A ideia de um santo protetor do reino se repete em vários momentos na fonte, assim como nos
sermões dirigidos aos participantes das festas, fazendo dele um verdadeiro santo guerreiro em
vida, assim como combatente invisível no presente que age por meio da relíquia. "Pois este é o
Santo, que rei da glória senhor Deus dos exércitos, em tal tempo, e ocasião das nossas guerras,
[...] , pátria sua, e nossa. E que faça a sua assistência, de armas nessa mobilíssima Villa de
Viana" (Mendonça, 1643: 66). Manifestação que se repete no sermão do padre D. Pedro de
Santo Agostinho, proferido no terceiro dia de festa, ao rememorar o seu papel na luta contra os
mouros:
[...] com tochas sempre na mão, quero dizer, com a luz resplandecente
de sua vida, de suas obras, e de os seus exemplos; senão também com
esforços de valoroso capitão, governou o povo mimoso de Deus, qual
foi sempre Português, e lhe deu a posse do reino, que hoje tem como
capitão valoroso, com as armas em suas mãos, e com pouca gente, que
consigo levava, tomou o santo a Vila de Arronches, e outros lugares
vizinhos, aos Mouros, que foram todos do real mosteiro de Coimbra
(Agostinho, 1643: 73).
De maneira mais explícita, D. Pedro de Santo Agostinho faz duras críticas àqueles que, por seus
pecados, permitiram que o reino caísse em desgraça e fosse governado, por quarenta anos, por
tiranos que só prejudicaram o reino português. No entanto, graças à intervenção do poder da
relíquia de São Teotônio e de D. João IV, o “verdadeiro rei”, a paz foi restaurada. "Quem duvida
que estando esta vila, como todas as demais vilas, e cidades deste reino, perseguido, tiranizado,
em vésperas de ser todo destruído pelo inimigo [...] como foi Jerusalém e todo o reino da Judeia
pelos Caldeus, o restituiu Deus [...] ao legítimo herdeiro dom João IV" (Agostinho, 1643: 79a).
Ao encerrar o sermão D. Pedro de Santo Agostinho faz um discurso deliberadamente aberto
contra a conivência dos portugueses que, segundo ele, foram responsáveis pela perda da
liberdade e da soberania do reino português. No entanto, em face da presença da relíquia,
resgata-se o reino que outrora fora criado e mantido por Afonso Henrique com ajuda de S.
Teotonio: "[...] as vitórias que deles alcançava não só as armas, mas as orações de S. Teotonio,
por elas tivemos o Reino de Portugal ditoso" (Agostinho, 1643: 80a). Ainda segundo o sermão,
a felicidade do reino durou muitos anos, mas, por culpa de alguns, "[...] vieram sessenta anos,
em que tudo se perdeu, e ficou sem reino, e sem sacerdote", em pior estado que o reino de
Judeia no tempo de Herodes (Agostinho, 1643: 80a). Contudo, com D. João IV e com ajuda
divina, Portugal recupera suas virtudes naturais "[...] A estas tiranias, e desconsolações acudiu
Deus, como tinha prometido ao primeiro e santo Rei. Deu-nos Rei que não somente no sangue
real, represente o primeiro, mas também nas virtudes, no esforço, na prudência, no zelo a de