José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E
POLÍTICA
TRANSLATION OF THE RELICS OF SAINT THEOTONIUS: CELEBRATIONS,
DEVOTION, AND POLITICS
TRASLADO DE LAS RELIQUIAS DE SAN TEOTONIO: FIESTAS, DEVOCIÓN Y
POLÍTICA
José Carlos Gimenez
1
Renata Cristina Nascimento
2
Resumo
Este artigo apresenta um estudo da Procissão da relíquia de São Teotônio, transladada do Real
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para o Mosteiro da Viana de Lima, Portugal, no ano de
1642. Com narração em primeira pessoa, foram registrados os pormenores ocorridos nos
quatros dias de celebração, com especial atenção às celebrações litúrgicas por meio do cortejo
da relíquia do Santo, orações, sermões, missas, entre outras, além dos aspectos das
manifestações profanas, como os torneios equestres, batalhas simuladas, bailes, apresentações
musicais e teatrais, entre outros. A fonte possibilita analisar, também, como o Santo,
representado pela relíquia, contribui para a projeção política do reino de Portugal.
Palabras chave: Relics- Processiona- Monastery of Santa Cruz de Coimbra- Religiosity-
Kingdow of Portugal.
Abstract
This article presentes a study of the Procession of the relic of Saint Teotonius, transferred from
the Royal Monastery of Santa Cruz of Coimbra to the Monastery of Viana de Lima, Portugal,
in the year 1642. Narrated in the first person, the details of the four days of celebration werw
recorded, with special attention to the liturgical celebrations through the procession ofo tha
1
Doutor em História pela UFPR. Professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR). Membro do
Laboratório de Estudos do Império Português (LEIP/UEM), Pesquisador - Rede de Pesquisa Sobre Arte e História
das Relíquias Cristãs Ibéricas. E-mail: jcgimenez@uem.br
2
Doutora em História pela UFPR. Professora titular da Universidade Federal de Jataí, Pontifícia Universidade
Católica de Goiás e Universidade Estadual de Goiás. Coordenadora do grupo Sacralidades Medievais.
Coordenadora da Rede de Pesquisa Sobre Arte e História das Relíquias Cristãs Ibéricas (CNPq). E-mail:
renatacristinanasc@gmail.com
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Saint’s relic, prayers, sermons, masses, among others, as well as aspects of the secular
manifestations, such as equestrian tournaments, simulated battles, dances, musical and treatrical
performances, among others. The source also allows for an analysis of how the Sains,
represented by the relic, contributes to the political projection of the Kingdom of Portugal..
Keywords: Relíquias- Procissão- Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra- Religiosidades- Reino
de Portugal.
Resumen
Este artículo presenta un estudio de la Procesión de la reliquia de san Teotonio, trasladada del
Real Monasterio de Santa Cruz de Coímbra al Monasterio de Viana de Lima, Portugal, en el
año 1642. Con una narración en primera persona, se registraron los pormenores ocurridos
durante los cuatro días de celebración, con especial atención a las celebraciones litúrgicas a
través del cortejo de la reliquia del santo, las oraciones, los sermones, las misas, entre otras, así
como a los aspectos de las manifestaciones profanas, tales como los torneos ecuestres, las
batallas simuladas, los bailes y las presentaciones musicales y teatrales, entre otros. La fuente
permite analizar también cómo el santo, representado por la reliquia, contribuye a la proyección
política del reino de Portugal.
Palabras clave: Reliquias- Procesión- Monasterio de Santa Cruz de Coimbra- Religiosidades-
Reino dePortugal
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
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1. Introdução
Vinda do Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com grande participação de religiosos,
aristocratas e populares, nos dias cinco, seis, sete e oito de agosto de 1642, a relíquia de São
Teotônio foi recebida no mosteiro da Viana de Lima. O recebimento dessa relíquia, uma cana
do braço do Santo, oferece, para além dos aspectos religiosos, a possibilidade para conhecermos
as singularidades das festas profanas de diversas naturezas, e os discursos políticos de
glorificação aos monarcas e à monarquia lusitana.
Embora não haja unanimidade entre os pesquisadores, 1082 é considerado o ano de nascimento
de São Teotônio, assim como 1092 é considerado o ano de seus primeiros passos na vida
religiosa, quando deixou Tardinhade, em Ganfei (Valença), um lugarejo pertencente à cidade
de Tuy, província de Galiza, para acompanhar o tio materno, D. Crescónio, arcebispo de
Coimbra (?-1098, bispo desde 1092). Com a ajuda do tio, foi instruído em filosofia e teologia
e, após a morte deste, São Teotônio foi enviado para a diocese de Viseu, onde cumpriu as etapas
da sua formação, até sua ordenação sacerdotal, em 1107. Juntamente com D. Telo, ele teve
papel fundamental na fundação e no desenvolvimento inicial do Mosteiro de Santa Cruz, sendo,
inclusive, o primeiro Prior da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho ali instalada,
até sua morte em 18 de fevereiro de 1162 (Silva, 2017; Nascimento, 2013).
A canonização de São Teotônio foi rápida, em 1163, exatamente um ano após sua morte. Dela
participaram o arcebispo de Braga, D. João Peculiar (?-1175), os bispos de Coimbra, do Porto,
de Lamego e de Viseu. Com esse ato, ele passou a ser aclamado e cultuado como o primeiro
religioso nascido em solo lusitano e inscrito oficialmente entre os santos católicos. Os festejos
oficiais em comemoração ao seu dia foram estendidos para todo o reino português e fixados em
14 de setembro de 1605. A popularidade de seu culto e sua ampliação também podem ser
verificadas quando foi elevado a patrono da cidade de Viseu e ainda nas festas oficiais em seu
nome para as dioceses das cidades de Porto, Lamego, Coimbra, entre outras. Segundo Aires
Nascimento,
Comparada com outras, a legenda de Teotônio mantém-se quase
unânime ao longo das gerações. Apenas por equívoco surgiram alguns
traços que ficaram colados à sua figura, quando se lhe associou algum
acto ou momento menos comprovado [..]. A devoção ao santo ficou
expressa em escolhas de patrono que se prolongaram pelas esculturas
que foram espalhadas por paróquias que replicaram o que algumas
igrejas centrais haviam já feito [...] (Nascimento, 2013: 75).
A vida religiosa de São Teotônio também é marcada pela sua proximidade com o primeiro casal
real português D. Afonso Henriques (1109? -1185, rei desde 1139) e Dona Mafalda (1125-
1158) podendo ser conhecida por meio de uma hagiografia escrita logo após sua morte. Esse
documento não traz o nome do autor, porém é atribuído a um dos religiosos que convivia com
ele no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A tradução e o estudo dessa hagiografia foram
realizados por Aires A. Nascimento (2013), o que permite acompanharmos os diferentes
momentos vividos pelo Santo.
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Os aspectos da vida do Santo, presentes nessa hagiografia, foram reproduzidos no documento
que narra o traslado da relíquia, em 1642, do mosteiro de Coimbra para Villa de Viana de Lima
e, embora não seja nosso objetivo fazer uma leitura comparada entre essa hagiografia e o relato
do recebimento da relíquia, realizações da vida do Santo foram retomadas nas descrições das
procissões, dos sermões e das festas laicas durante os quatros dias de festividades. Prevalece
nessas descrições a imagem de um homem com profunda vocação e vivência religiosa,
qualidade moral, renúncia aos prazeres, compaixão pelos necessitados, comprometimento com
as ações políticas do primeiro monarca português, entre outras, o que faz dele um exemplo de
vida monástica, um importante intercessor entre os homens e Deus e, acima de tudo, um santo
que dignifica o povo lusitano, os reis e a monarquia por toda a eternidade. Assim, a exaltação
à relíquia de São Teotônio exprime essa ideia universal da sua potencialidade. De acordo com
José Adriano de Freitas Carvalho, os anseios para possuir uma relíquia do Santo vem de longa
data, uma vez que, em 1569, o bispo de Viseu, D. Jorge de Ataíde (1535-1611, bispo de 1569
a 1578), solicita relíquias de São Teotônio para a sua Sé. No entanto, apesar da aceitação do
Bispo, a relíquia não seguiu para aquela e, "[...] quase meio século depois, outro bispo de
Viseu fará a transladação, muito festiva, de grandes relíquias do mesmo santo" (Carvalho, 2001:
111). Segundo esse mesmo autor, em 1603, essa tentativa foi efetivada quando outro bispo da
mesma cidade, D. João de Bragança (?-1609, bispo desde 1599), recebeu o braço direito de S.
Teotônio com cerimônias litúrgicas e festejos populares (Carvalho, 2001: 113).
O documento que estamos analisando se refere às festas para a recepção da relíquia do Santo,
ocorridas em agosto de 1642.Os registros das celebrações foram publicados em 1643, sob o
título “Relaçam das festas, que a notavel villa de Viana fez, na entrada, & recebimento da
sagrada reliquia do glorioso Sancto Theotonio primeiro Prior do Real Mosteiro de Sta. Cruz de
Coimbra dos Conegos Regulares de Santo Augustinho, no seu mosteiro, que os mesmos
Conegos de novo lhe edificaraõ na mesma villa de Viana”. Descrito por Pedro Arrais de
Mendonça, da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho, o texto reproduz as particularidades
dos sucedidos nos dias do evento, quando o entretenimento e as celebrações das missas se
intercalam com sermões públicos
3
, cuja importância é destacada pelo próprio narrador: “Os
sermões que nesta relação se trazem, & foram pregados na ocasião do dito recebimento desta
relíquia, são muito doctos, & Católicos dignos, assim das grandíssimas pessoas, que os
pregaram, como de se imprimirem, para que todos possam gozar de tão sólida, e verdadeira
doctrina” (Mendonça, 1643: fls. 2).
As informações contidas no texto possibilitam um conhecimento das festas religiosas
portuguesas do século XVII, nas quais sobejam temas como música, instrumentos musicais,
teatro, dança, torneios, fogos de artifício, armas, religiosidade popular, fé, milagres, procissões,
adornos sacros. Nelas, o sagrado e o profano, o laico e o clerical, a presença de humildes e de
aristocratas se encontram com um único propósito: recepcionar com grande arrebatamento a
relíquia de São Teotônio. Com o propósito de exaltar a grandeza da solenidade, o relato oferece
aos leitores os motivos religiosos e políticos pelos quais a Villa de Viana Lima foi escolhida
para receber a relíquia do Santo. A opção do local se justifica pelo fato de o Santo ter nascido
3
Sermões proferidos pelos padres Luís dos Anjos, Conego Regrante de Santo Agostinho; Sebastião da Graça,
prior do Mosteiro de Refoios de Lima e Padre Pedro de Santo Agostinho, prior do Mosteiro de Moreira.
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naquela região, e por grandes mártires no passado terem vivido na Villa. O autor também
destaca que, apesar das dificuldades iniciais, a aprovação e o lançamento da pedra fundamental
para a construção da nova igreja junto ao mosteiro foi possível graças à intervenção do
monarca lusitano. Na breve apresentação do relato, ainda há referências às liturgias, pedidos de
donativos e uma resumida hagiografia do Santo, cuja finalidade é sensibilizar os fiéis dos
favores que podem alcançar com a adoração e a participação das festas em sua homenagem.
Programadas, a princípio, para acontecerem em três dias, as comemorações se estenderam por
quatro, ainda que os participantes desejassem que lhes fossem autorizados oito dias para festejar
a chegada das relíquias. Pelos relatos e pelos sermões, fica evidente que foi uma grandiosa festa
com participação de todos os estratos sociais. Nela, a cultura clerical e erudita, sobretudo pela
pregação dos sermões com citações blicas e histórias da antiguidade clássica misturam-se, de
maneira harmoniosa, com festas e jogos promovidos pela aristocracia, estudantes universitários,
marinheiros, soldados e cavaleiros. A natureza das festas também é diversa, com torneios,
competições com armas de fogo, simulações de batalhas navais e procissões com tochas que
iluminam o cortejo que acompanha todo o trajeto da procissão da relíquia ao mosteiro. Todas
essas festas, em última instância, almejavam marcar, de maneira memorável e triunfal, a
recepção da relíquia de São Teotônio no Novo Mosteiro. Ao destacar a importância dessas
festas promovidas pela Igreja, principalmente, após o Concílio de Trento, Isabel Cofiño
Fernández, escreve:
De ahí que la Iglesia no escatimara en medios para ensalzar la
importancia de las reliquias, sobre todo a través de la organización de
diversas ceremonias relacionadas con las mismas, entre las que
sobresalieron las traslaciones. La nueva piedad tridentina, de carácter
exaltado y extremo, encaminada a excitar la devoción de las gentes
mediante resortes visuales, convirtió estas traslaciones en actos de
marcado carácter teatral (de igual manera que sucedió con otros
acontecimientos religiosos, como las procesiones del Corpus, las
canonizaciones o las exequias reales), cuya riqueza y esplendor eran del
gusto de un pueblo que siempre se mostró atraído por lo maravilloso y
lo sorprende (Cofiño Fernández, 2003: 378).
Com exceção às missas celebradas no interior da Igreja do mosteiro, os demais ritos
procissões litúrgicas, músicas, danças, torneios, batalhas simuladas, fogos artifícios, entre
outras, ocupam os mesmos espaços urbano rio, ruas, praças e paço do mosteiro , porém elas
ocorrem em diferentes horários. Embora o recebimento da relíquia seja um acontecimento
pontual, o aproveitamento da tradição das festas periódicas da Câmara e de Corpus Chisti
também contribui, em boa medida, para a organização dos festejos. Segundo a fonte, [...] tanto
a sagrada relíquia desembarcasse, fosse levada em procissão debaixo de pálio, ao mosteiro,
acompanhada de todos os guiões e cruzes do termo, e todas as danças, e figuras que costumam
ir às procissões da Câmara, e na principal de Corpus Christi” (Mendonça, 1643: 16).
Na sequência, apresentam-se os propósitos das festas do primeiro dia, a descrição do relicário
onde será depositada a relíquia do Santo, bem como a participação e a presença das autoridades
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religiosas e laicas na cerimônia. O encerramento dos festejos do primeiro dia, à tarde, foi
reservado para a pregação do sermão do Padre Luiz dos Anjos, cujo tema versa sobre a
exaltação divina e a responsabilidade humana. O segundo dia, antes da missa solene, marcada
para as nove horas, também foi festejado com vários tipos de dança, bailes, desfiles de barcos
com bandeiras a representar os diferentes grupos ali presentes. A programação matinal terminou
com o sermão, pregado pelo Padre Sebastião da Graça, Prior do Mosteiro de Santa Maria de
Refoios. À tarde, a partir das catorze horas, a solenidade é reservada ao desfile de fidalgos e
senhores vindos de Braga, Ponte de Lima, Caminha, Barca e outras localidades. Ainda segundo
o relato, o apogeu da festividade desse dia foi o desfile de cavalos equipados com suntuosos
adornos, escudos e armas.
Na manhã do terceiro, dia não houve festa. Esse período foi dedicado às práticas religiosas,
como missas, visitação ao novo mosteiro e à nova igreja dedicada ao Santo, com destaque para
o Santo Jubileu, concedido pelo papa Urbano VIII a quem visitasse esses lugares. A
comemoração dessa manse encerrou com a pregação do padre D. Pedro de Santo Agostinho,
prior do Mosteiro do Divino Salvador de Moreira. A tarde do terceiro dia também foi destinada
às festas recreativas com a encenação, no pátio da igreja, da comédia El hombre bueno, retirada
de uma obra de Lope de Veja todavia precedida de bailes e músicas com variados
instrumentos. Para concluir as festividades dessa tarde, segundo o relato, um estudante saltou
do teatro e recitou uma loa
4
igualmente reproduzida na fonte que estamos analisando , a
exaltar a importância da requia para grandeza na nação portuguesa. À noite, os festejos foram
realizados com adornos colocados em muros, janelas e praças, juntamente com tochas e muita
queima de fogos, sobretudo no entorno do novo mosteiro.
Como afirmamos a princípio, embora estando oficialmente programada e autorizada para três
dias, os participantes conseguiram uma licença do Prior e das autoridades da Villa para que os
festejos fossem dilatados para mais um dia. Com certo improviso, as festas da manhã do quarto
dia ficaram a cargo de estudantes, com suas performances musicais, teatrais, trajes cômicos,
entre outras. Também com certa improvisação, segundo o relato, os espetáculos tiveram a
participação de cavaleiros com temáticas que misturam devoção às relíquias com festas e
torneios promovidos pela aristocracia, com distribuição de prêmios aos vencedores.
No final dessa fonte, o autor relaciona “algumas coisas notáveis que sucederam nos quatro dias
de Santo Teotônio” (Mendonça, 1643: 92.a), com principal relevo aos milagres e à Exaltação
Rimada do significado religioso e político do translado daquela relíquia do Mosteiro de Santa
Cruz de Coimbra para a Villa Viana de Lima.
2. A espera da relíquia
Uma relíquia com seu relicário, colocada definitivamente em seu lugar, remetem, em primeiro
lugar, a um objeto sagrado e representam a própria trajetória da vida do Santo ou da santa. A
essa memória, somam-se as diferentes narrativas hagiográficas, orações, reprodução de
4
Loa é uma peça teatral curta, um prólogo escrito para apresentar peças da Idade de Ouro espanhola, ou Siglo de
Oro, durante os séculos XVI e XVII.
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imagens e objetos, festas pelo seu dia e lendas, entre outras memórias. No entanto, essa mesma
relíquia ali presente, possui uma história e, às vezes, uma história pautada por interesses
particulares, que podem ser de um clérigo, de uma ordem ou congregação religiosa que, em
conformidade com poderes políticos, edificam santuários, mosteiros, igrejas, capelas; podem
ser ainda dos que patrocinam o translado do corpo Santo, ou parte dele, para um novo local. A
construção da igreja junto ao mosteiro e as comemorações para o recebimento da relíquia de
São Teotônio são exemplos desses procedimentos.
Nesse processo de edificação de espaços, também é importante estabelecer um vínculo entre
um acontecimento da pessoa santa que pode ser o nascimento maravilhoso, a realização de
um milagre, uma morte excepcional ou mesmo um passado marcante que dignifique o lugar
e o local para onde a relíquia será guardada. Do ponto de vista religioso, a escolha da Villa de
Viana se justifica ainda, segundo a fonte, pelo fato de ela ter sido, no passado, a Episcopal
e depois incorporada ao Bispado de Tuy e, posteriormente, ao Arcebispado de Braga. Além
disso, a localidade foi a antiga demarcação geográfica da Villa, que se estendia até o Rio Douro,
e onde foram martirizados os Santos Theóphilo, Saturnino e Revocata e os Bispos Maximiliano
e Valente. Ainda sobre o aspecto religioso da eleição do lugar, não menos importante, segundo
a Relaçam, foi o ato do monarca Afonso III, que, definitivamente, expulsou os mouros e
substituiu o nome do povoado de Atrium pelo nome de Viana (Mendonça, 1643:1-3). Dessa
forma, o passado honra o local da escolha para guardar a relíquia. "[...] Vinha com umas
embarcações a santa relíquia para levar a Ganfei, terra e pátria do glorioso santo" (Mendonça,
1643: 24).
De acordo com o relato, a primeira pedra para a construção do mosteiro foi lançada em agosto
de 1630, ou seja, doze anos antes da chegada da relíquia na Villa. As descrições sobre o ocorrido
revelam um conjunto de imagens que combinam logística, dificuldades para iniciar a
construção, arquitetura, materiais a serem usados, empenho das autoridades civis e religiosas
entre outros, com eventos extraordinários e ritos sagrados, reunindo prelados, conventuais,
nobreza e povo.
Preparadas, & ordenadas as sobreditas coisas,
no oitavo dia de agosto, recebido em um riquíssimo Pontifical, com
mitra e bago de grande preço, e chegando aonde estava a pedra angular
e fundamental a benzeu com todas as cerimonias e ritos ordenados pela
Igreja, para semelhante ato. E tomada em braços dos ministros com toda
a reverencia a foi lançar por suas mãos na larga e cumprida cava que
para os alicerces na nova igreja estava aberta: dando-lhe com isto o
princípio com tulo e nome S. Theotonio [...] (Mendonça, 1643: 9-9b).
Com o assentamento da primeira pedra, em 1630, os moradores de Viana de Lima esperaram
mais de uma década pela chegada da relíquia do Santo e pela inauguração do mosteiro. Para
que isso ocorresse, o papa Urbano VII
5
aprova que toda a Congregação, com título de Vigário
5
Importante observar que esse Papa, em 1642, promulga a bula Pro obervatione festorum, na qual se normatiza o
dia do Santo patrono como um dia festivo para trabalhadores. Conferir em Eliseo Serrano Martin, 2019, p. 98-99.
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Geral da Ordem do Mosteiro de São Teotônio de Viana, ficasse sob a administração do Padre
Miguel de Santo Agostinho. É a partir do relato de suas ações que passamos a conhecer a
natureza religiosa, cultural e política desse acontecimento. Segundo a Relaçam, a nomeação e
a transferência do Padre Miguel do Mosteiro de Coimbra a Viana de Lima foi fundamental,
pois
[...] determinou logo pôr em execução um
pensamento que a muitos dias trazia, que era fazer, nesta Villa de Viana,
umas soleníssimas festas ao glorioso Theotonio, e para dar causa e
motivo a estas festas tratou de santificar este lugar, enobrecer o seu
novo mosteiro com uma relíquia notável do Patrono deste São
Theotonio [...] (Mendonça, 1643: 12.a-13).
A primeira providência, segundo a fonte, foi consultar e encomendar, em oficinas lisboetas, um
relicário que estivesse à altura do Santo. Nessa passagem, o autor também oferece importantes
informações sobre arte e a simetria do objeto que guardara a mão do Santo, ao descrever as três
partes que compõem o relicário, a parte transparente com a colocação de vidro, o processo de
escolha do estilo e dos materiais, sobretudo dos metais e das pedrarias. Tudo isso com o objetivo
de que a sua beleza possa ser vista com admiração e louvor, e que "[...] A estes claros servem
de portas diáfanas e transparentes famosíssimos cristais pelos quais se acaba de fartas a vista, e
que se pode fartar, de tão precioso tesouro encerrado em um precioso cofre" (Mendonça, 1643:
12). Nesse aspecto, o fundamental é que arte relicária transcenda o material:
Se estima la magnificencia que rodea las reliquias, el esplendor de los
relicarios, el boato de las procesiones, la veneración, la exposición en
el templo, el beso a los ostensorios en las solemnidades o las fiestas
patronales, la riqueza de los materiales y los elementos de ornato que
les rodean: olores, o fragancias florales, el teñido de sangre, y otros
prodigios que no pueden obedecer más que a un milagro indiscutible
(Ibeas Gutiérrez, 2022: 301).
Com essas medidas, os religiosos do novo convento se manifestam que estão preparados para
o recebimento da relíquia, faltando, porém, autorização do Convento de Santa Cruz de Coimbra
e dos vereadores da Câmara da Villa de Vianna. A esse respeito o relato é breve, uma vez que
a participação impositiva do monarca português é irrefutável. Quando em Alcântara, em maio
de 1642, ele encaminha uma carta aos vereadores e procuradores daquela Villa, informando
que determinou que os cônegos de Coimbra levassem a relíquia para o novo convento: "para
que sirva de muro defesa dessa província, determinou ainda que, na ocasião que isso
acontecesse, [...] porque semelhante devoção é digna de ser favorecida e ajudada, [...] que
procureis de vossa parte com todo o fervor e afeto, que seja recebida e levada com
demonstrações de alegrias e aplauso" (Mendonça, 1643: 15). Em face à solicitação do monarca,
a Câmara de Vereadores deliberou para que a Santa Relíquia chegasse Villa em cinco de agosto,
mesmo dia em que se soleniza a festa de Nossa Senhora das Neves. No entanto, a partir da
introdução da relíquia na Villa deve-se, “[...] lagar o dia de sua solenidade e festas, para que em
seu lugar entrasse, e fosse festejado um santo tão cortezão, e discreto que sempre lhe deu o
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primeiro, não temendo mostrar por palavras e obras em matéria de serviço e honras, quando de
permeio está a rainha no Céu, não tem lugar na terra” (Mendonça, 1643: 15a – 16).
Como visto no fragmento acima, o dia dedicado para a devoção à Santa foi substituído por
“decreto” pelo de São Teotônio. Do ponto de vista institucional, Igreja e poderes políticos
reconhecem a importância da realização de uma comemoração para o recebimento da relíquia
e, para que ela seja grandiosa, planeja-se um espetáculo público que comova e, ao mesmo
tempo, divirta. Para isso, ordena-se que a relíquia saia de Coimbra em uma embarcação especial
acompanhada por outras tripuladas por mosqueteiros. em terra, a relíquia deverá ser levada
em procissão até o mosteiro e ser acompanhada de danças durante a noite, devendo os
moradores colocarem luminárias nas janelas de suas casas, em alto grau; ordena-se ainda que
os participantes se comportem solenemente e demonstrem devoção ao Santo (Mendonça, 1643:
16).
Ainda que o relato apresente a participação da coletividade no recebimento da relíquia, é notória
a diferença dispensada para “aqueles que levam tochas e bailam pelas ruas”, que
espontaneamente se divertem com as comédias, danças, folias e bailes durante quatro dias, e as
festas organizadas e promovidas pela aristocracia, onde prevalece o rigor, o comedimento, a
fidalguia, o luxo. Nelas, cavaleiros e nobres escolheram os melhores cavalos e companheiros
para apresentação de suas quadrilhas, "[...] para com todo o rigor e ordem de cavalaria melhor
festejassem" (Mendonça, 1643: 16). Ao escrever sobre a festa celebrada em Bilbao por ocasião
da canonização de Santo Inácio de Loyola, em 1622, Pedro María Montero Estebas destaca a
hierarquização social que dela participa:
Las relaciones manejadas aportan una visión prototípica de la
participación social en los festejos. Destacan el protagonismo de los
estamentos eclesiásticos en multitud de actos. La villa como
corporación y la nobleza de todo el Señorío acuden y participan
activamente en la efeméride. La procesión será la ceremonia donde
mejor se refleje la estratificación propia de una sociedad jerarquizada.
Su cortejo constituye una cuidada representación del poder político y
religioso. Frente a ellos, el pueblo mantendrá una actitud más pasiva
(Montero Estebas, 1994: 218).
Para que a recepção da relíquia fosse um grande e festivo espetáculo, os organizadores
recomendam, igualmente, o cuidado que se deve ter com pinturas e enfeites dos barcos, uma
vez que eles devem ser "[...] preparados com varandas tingidas, e pinturas brutescas, para que
com esta variedade de cores, e pinturas, ficasse o rio mais aprazível e alegre". Também não
podem ficar fora dos festejos os Plebeios da Villa, com suas máscaras e disfarces e aplausos
para mostrar suas vontades para servir ao Santo (Mendonça, 1643: 16a). Neste sentido, a
exposição da relíquia durante a procissão é um objeto que se soma a tantos outros objetos
artísticos para engrandecer o acontecimento, encantar os participantes e glorificar a imagem de
São Teotônio. Aspecto importante destacado por Paula Cristina Machado Cardona:
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As procissões sacras determinaram a criação de um conjunto de
objectos artísticos constituídos por uma variada tipologia de
equipamentos, inúmeros objectos litúrgicos produzidos com distintas
matérias-primas que se organizavam de forma complexa e aparatosa
nos diferentes alinhamentos processionais e que variavam de acordo
com a importância da procissão, dos seus intervenientes e dos seus
espectadores. Todos estes objectos e equipamentos constituem de
forma sumária o que se designa por objectos processionais e aqui as
questões impõem-se: quem os encomenda, quando e como eram
utilizados, que função específica servem (Cardona, 2009: 129).
Como se pode constatar, a oficialidade do evento contou com a participação da sociedade
política, eclesiástica e ordens religiosas. No entanto, a participação popular dos devotos dos
Santo, como barqueiros, pintores, acrobatas, dançarinos, atores, jograis, entre outros,
proporcionam o verdadeiro sentido da festa, em que o lúdico e a devoção conviveram em
perfeita harmonia.
Assim, o documento oferece múltiplas possibilidades de análise, porém escolhemos, para este
artigo, três temas que se completam: as festas como entretenimento e manifestação do sagrado,
a relíquia com um pacto religioso e social e o discurso político em favor da monarquia
portuguesa. Neles, a receptividade da relíquia consolida um discurso que visa a aprofundar e
aproximar, ainda mais, a interação entre os desejos dos fiéis e a proteção do Santo.
3. Uma Villa em festa
A suntuosidade da festa já se revela com a descrição da parada das luxuosas naus em Darque
6
a caminho da Viana de Lima e a recepção da relíquia na manhã seguinte. Com descrição da
pompa das diferentes embarcações, o autor narra a chegada triunfal da relíquia por meio de uma
procissão náutica até o cais do porto. Dentre tantas embarcações ricamente decoradas, podemos
perceber a diversidades das cores e dos ritmos que conduziam a cerimônia:
Acompanhava outra barcaça da mesma maneira pintada. E igualmente
aprazível, sobre o qual se armou um bem largo e espaçoso teatro, onde
várias danças, e entre elas uma dança de Negros, ao seu modo, com
ditos composto à ocasião presente de louvar, e festejar São Theotonio,
a sua sagrada Relíquia (Mendonça, 1643, 1963: 19).
Também se somam a essa embarcação outras galés com a participação de religiosos,
vereadores, fidalgos estudantes, soldados. Nelas, as manifestações se repetem ao longo do texto,
sempre acompanhadas de música, danças, fogos de artifício e batalhas simuladas:
6
O porto de Darque a que se refere a fonte é uma vila portuguesa com sede da Freguesia do mesmo nome,
pertencente ao Município de Viana do Castelo.
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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[...] E assim começaram os tambores a dar seus repiques,
acompanhados de clarins, trombetas e charamelas, a cujo som
começaram todos a dar mil voltas ao redor da galé real, onde havia de
vir a relíquia, dando fogo a peças e roqueitas, mosquetes, arcabuzes,
espingardas, clavinas, e pistolas, acometendo-se, e abalroando-se com
tamanho estrondo, que parecia uma rigorosa batalha, o que era
recreativo jogo, e festival demonstração (Mendonça, 1643: 19).
Não menos importantes são as cores e as alegorias que enfeitam e acompanham o cortejo da
relíquia, com "embarcações pintadas e embandeiradas lustrosas frotas [...] E sobretudo por ver,
e contemplar a beleza da capitania que, navegando na retaguarda, ia dando lustre e graça a tudo,
com a presença da preciosa relíquia" (Mendonça, 1643: 20). Interessante observar, também,
que o narrador tem consciência da importância da presença do festivo e do lúdico na recepção
da relíquia. Segundo o narrador, a festa foi “[...] tão bizarra, tão alegre, de tanta grandeza, de
tanta majestade, de tanto custo, e gasto, que está ainda que não haverá mais outra era digna
de se imprimir, e espalhar pelo mundo, para que viesse a notícia de todos” (Mendonça, 1643:
20-20a).
Para além das representações lúdicas que tomaram boa parte das comemorações do primeiro
dia, o autor registra como a população espontaneamente se juntou ao cortejo oficial da relíquia
que seria levada do cais ao mosteiro e que chama de “bizarra alegria” e fervor religioso
exteriorizado por meio da decoração da Villa com flores, ervas perfumadas, tecidos coloridos,
"mostrando os moradores da vila, que não uma, senão muitas vitórias e triunfos esperam
alcançar, com a entrada dessa relíquia" (Mendonça, 1643: 23a.).
Desta feita, a Procissão da Relíquia de São Teotônio pode ser compreendida conforme as
considerações de Cardona (2009) ao notar que, diferentemente de uma peregrinação em que a
essência é mais circunscrita e individual, a procissão sacra é mais comunitária e possui um
grande valor simbólico destinado à devoção coletiva associada às performances festivas e
populares. Nela, os preceitos são múltiplos para os sujeitos que participam ativamente, assim
como numerosos são para os espectadores. Assim,
A procissão simboliza o pertencimento dos fiéis à Igreja, mas é feita no
espaço externo ao templo, nas ruas e não em seu interior, o que
demonstra a ambiguidade inerente ao ritual: cerimônia ao mesmo
tempo eclesiástica e profana, controlada pela Igreja e absorvendo
elementos profanos. Ao mesmo tempo, a procissão afirma a autoridade
da sobre o espaço profano, incorpora-o à autoridade da Igreja e faz
com que a identidade cristã dos que dela participam seja afirmada
perante eles próprios e perante quem se mantenha alheio à (Souza,
2013: 44).
Ainda que a procissão da relíquia de São Teotônio tenha sido programada pelas autoridades
religiosas com anuência dos poderes civis, ela nos revela a importância da participação da
sociedade laica, principalmente quando se observam os ritos praticados fora das igrejas e dos
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
61
claustros, onde o lúdico ocupa um importante espaço. Sobre este tema, afirma António
Francisco Barbosa:
As demonstrações de levavam as pessoas a praticarem as mais
diversas ritualizações face à divindade, como prova de grande devoção.
Apesar de esta religiosidade popular se ancorar nos princípios oficiais
do catolicismo, não dispensava momentos de grande convivência,
guarnecidos com as mais diversas atividades lúdicas. A eloquente
elaboração dos programas festivos procurava, desta maneira, cativar o
público, funcionando como estratégia eficaz para demonstrar o poder
dos seus organizadores, sendo reconhecido por quem participava na
festa, que marcava um tempo e lugar específicos. No fundo, as festas
constituíam um processo pautado por uma variedade de “ingredientes”
como fogos artificiais, iluminações, música, bailes, corridas de touros e
cortejos que culminava numa exultação, alegria, sociabilidade e
estreitamento de laços de amizade dos seus participantes (Barbosa,
2013: 651)
Em relação ao Recebimento da relíquia de São Teotônio, as festas sempre acontecem antes ou
após a pregação de um sermão. Diferentemente do primeiro dia, quando ocupou toda a manhã,
no segundo dia ocorreu até às nove horas e serviu como preâmbulo do sermão que seria pregado
na sequência. "[...] Acudiram nele todos ao mosteiro, a quem mais madrugaria: mas pelo grande
concerto, não pôde haver lugar para todos, por mais que madrugaram" e, mais uma vez, o autor
destaca os “pontos altos” dessa festa: danças, músicas, chacotas, fantasias, porém "[...] com
muita graça e arte, cantavam várias letrilhas compostas ao divino para a ocasião presente, e
louvores do glorioso santo, e a sua relíquia, com que alegraram toda a vila" (Mendonça, 1643:
53a).
Também, diferentemente do que ocorrera pela manhã, quando o autor não se preocupou em
estabelecer distinção social entre os participantes, ele destaca que o período da tarde foi
marcado por um desfile organizado pela aristocracia, o que evidencia que foi um acontecimento
preparado pela elite econômica, principalmente por destacar os títulos e a riqueza dos fidalgos
com seus cavalos:
[...] todos de tão boa postura, e graça, com tanta riqueza de telas,
bordados, cadeas, colares de fino ouro, medalhas e joias, com poderosos
cavalos tão custosamente ajaezados, assim os que iam desempedrando
as ruas, como os que levavam à destra, e com pajens, e lacaios de tão
vistosa libres, e curiosas marlotas, que arrebatavam e levavam após si
os olhos com que eram vistos, e corações que haviam rendidos
(Mendonça, 1643: 67).
O autor ressalta ainda, a presença aristocrática de outras partes do reino, como Braga, Ponte de
Lima, Caminha, Barca, Arcos, sempre com grande aparato e pompa, em uma clara
demonstração para demarcar a diferença entre as festas espontâneas e alegres com a
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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participação de todos, e os festejos programados por nobres e senhores. O alto da festa
aristocrática são os jogos e a simulações como realização de uma cavalhada entre nobres e
aristocratas, cujo objetivo era a exibição pública de coragem, valentia e habilidade com o
animal, mas não indecoroso, "[...] A qual se seguiu o jogo muito galante, e gracioso das
Alcanzias, que se fez sem algum desar, nem desatento, nem haver quem perdesse o ponto e
tempo, nem ordem "[...]. Foi este jogo, e exercício cavalheiroso todo a brida, e com todas as
regras da cavalaria" (Mendonça, 1643: 67b). As festas do segundo dia se encerram com grande
concentração dos participantes ao redor do mosteiro, sempre acompanhadas com tochas,
disparo de armas de fogo, rodas pirotécnicas e rojões.
As comemorações da manhã do terceiro dia se iniciam com uma missa solene dedicada ao Santo
e sem festa, mas reservado para todos se dispusessem a “[...] ganhar o Santo Jubileu concedido
pela Santidade de Urbano VIII, nosso Senhor a todas as pessoas que confessadas e comungadas
visitaram a nova Igreja de S. Teotonio" (Mendonça, 1643: 68). A manhã termina com a
pregação de um sermão, porém o lúdico retorna à tarde com apresentações teatrais por
estudantes da Villa aspectos que exploraremos nas discussões sobre o conteúdo políticos da
festa, e entra pela noite com desfile de tochas, queima de fogos, e salva de tiros, sobretudo no
entorno do mosteiro. No quarto e último dia concedido aos participantes, embora eles
desejassem mais cinco para completar oito dias de festa, os festejos se repetem com muita
dança, música, jogos, desfile com tochas, queima de fogos, torneios a pé e a cavalo, mais uma
vez no entorno do mosteiro, com saudações à relíquia.
O encerramento das festas em prol da relíquia nos revela não um verdadeiro inventário das
festas urbanas da época ao testemunhar a participação dos diferentes estratos sociais e culturais,
mas também as manifestações de por meio de procissão, orações e sermões ao Santo, além
da exteriorização de poder da sociedade política com participação de estratos sociais superiores
a exibirem seus trajes, suas joias, seus cavalos e premiação aos vencedores, símbolos máximos
da aristocracia (Mendonça, 1643: 90-92).
4. Os sermões: Um pacto entre a Villa de Viana e a relíquia de São Theotônio
Repartidos os corpos dos santos em várias, ainda que
muito pequenas relíquias, para se porem em várias
terras, nelas ficam os santos inteiros, com todas as
suas graças e vitudes. Naquela sagrada relíquia do
divino Theotonio tendes todo o santo inteiro, tendes
todas as suas graças e vitudes, e tendes finamente a
honra e consolação, que tem os seus filhos de o terem
entre si sepultado (Santo Agostinho, 1643: 76).
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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Proferidos em diferentes dias, primeiro sermão foi pregado pelo Padre Luís dos Anjos
7
, fls. 26
a 51, o segundo pelo Padre Sebastião da Graça
8
, fls. 54 a 67 e o terceiro pelo Padre D. Pedro
de Santo Agostinho
9
, fls. 69 a 83. Juntamente com as missas, esses sermões compõem e
representam o discurso oficial da Igreja na cerimônia de recepção da relíquia. Os temas por eles
tratados são muitos, assim como são as muitas possibilidades de análise. Embora não sigam um
roteiro comum, o que denota certa liberdade dos sermonistas, o caráter religioso da vida de São
Teotônio ocupa a essência discursiva para os diferentes pregadores. Resgatar a história do santo
desde os primeiros contatos com a religião, passando pelos momentos de suas provações e
escolhas, pelos milagres alcançados por meio da fé depositada nele é também uma maneira
de atualizar e ampliar sua história. Assim, ao dispor a relíquia do braço do santo na igreja do
novo mosteiro, a Villa abrigará o mais ilustre entre os moradores e um guardião contra males
que possam recair sobre os habitantes. Dessa maneira, os discursos proferidos nos sermões
contribuem para sacralizar a relíquia e cobrar a fidelidade dos moradores para perpetuar a
memória do Santo. Segundo Capelão, “O maravilhoso, tal como pregado nos sermões, tornou-
se, ao longo dos séculos XVI e XVII, um dispositivo para a sacralização das relíquias. Isto foi
aceite não pelo leigos na sua ânsia de obter relíquias, mas também pelos próprios agentes
religiosos” (Capelão, 2022: 160).
Mais que um modelo de vida austera para religiosos e religiosas seguirem, ele é um exemplo
de para os fiéis, uma vez que a guarda da relíquia pela comunidade propicia uma série de
benefícios. Sobre isso os sermões insistem, uma vez que, no plano do imaginário religioso, a
relíquia sacraliza os espaços e se constitui em uma fortaleza invisível contra todo tipo de ataque
externo, seja de ordem natural, seja de ordem espiritual. Como afirma Edina Bozoki, sobre a
ideia de uma relíquia como proteção da comunidade: "[...] Festivais, procissões, usos
apotropaicos de relíquias acentuaram esse sentimento de solidariedade entre o patrono celeste
e seus protegidos desde a Antiguidade tardia" (Bozoky, 1996: 267).
Assim, a relíquia passa a representar um muro simbólico que a todos protege por meio de um
pacto com São Teotônio, ou seja, não basta a presença da relíquia, há que cultuá-lo segundo os
preceitos da religião, "[...] Estrategia en la que jugó un papel esencial la presencia de reliquias,
como testimonios tangibles de un pasado oportuno que se busca sacar a la luz, además de los
beneficios que su propiedad otorgada en el presente" (Capelão, 2022: 135).
[...] teve Deus nosso Senhor, quando com sua divina providência
ordenou dar a esta notável, a muito insigne Villa a sagrada relíquia do
glorioso Patriarca nosso S. Theotonio, havendo o mesmo Senhor que a
prodigiosa virtude de tão excelente varão era merecedora de ser
respeitada no Céu, e se oporia, por parte deste lugar, contra o rigor de
sua ira quando ele ofendido quisesse castigar, assim segura pode estar
daqui em diante Vianna de experimentar os castigos, calamidades e
7
Conego Regrante de Santo Agostino, Mosteiro da Serra de Villa Nova do Porto.
8
Prior do Mosteiro de Santa Maria de Refóios de Lima.
9
Prior do Mosteiro de Moreira.
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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trabalhos que partem os que ofendem Deus, pois tem muro tão forte e
tão valoroso defensor (Anjos, 1643: 27).
Mais adiante, nessa mesma passagem, para justificar a importância da relíquia de São Teotônio,
o autor faz referência a outros santos, São Basílio e São João Batista, como exemplo de
determinação religiosa que, para proteger seus fiéis, foram decapitados. No caso de S. João
Batista, a cabeça dependia da conservação do reino (Anjos, 1643: 27a). O autor pretende ainda
mostrar aos habitantes da Villa as vantagens da instalação e da adoração à relíquia naquela
cidade:
“A primeira. Porque nela tem muro e escudo para com Deus. Segunda.
Porque nela tem honra para com os homens. Terceira. Porque essa
honra tanto é maior, e tanto mais forte o muro, e o escudo, quanto a
Santidade do glorioso Theotonio é mais superior, e mais respeitado de
Deus” (Anjos, 1643: 28).
Como destacamos, não basta a Villa abrigar requia; que estar vigilante e depositar a
no santo, pois a história, segundo o autor, tem mostrado, como a falta de fé castigou Sodoma
quando os habitantes desafiaram Deus com torpezas e abrazaram como punição divina. Porém
é diferente com a ditosa Viana, "[...] Porque tanto são o que Deus lhes nessa sagrada relíquia,
para se defenderem, assim o castigo do Céu, como inimigos da terra" (Anjos, 1643: 28). Nessa
perspectiva, projeta-se que toda a Villa seja um solo sagrado, e os moradores são os guardiões
da relíquia.
Neste particular, o autor apresenta a superioridade das cidades que possuem relíquias. Elas são,
acima de tudo, um presente de Deus, devendo ser defendida e guardada. "[...] Muro
inexpugnável, escudo fortíssimo contra o qual nenhuma força por maior, mais superior que seja
pode nunca prevalecer, e um santo ou qualquer relíquia sua, a respeito do lugar, vila ou cidade,
que mereceu dar o Deus nosso senhor, para a defender e guardar" (Anjos, 1643: 28a). A esse
respeito, Eleso Serrano Martin afirma que o santo patrono manifesta um poder religioso e
simbólico ao mostrar toda a sua grandeza no local onde é venerado, sobretudo onde suas
relíquias serão preservadas:
Sin duda alguna los santos patronos cumplirán a la perfección la
demanda de las ciudades y villas, de las comunidades locales y
territoriales de identidades propias que fuesen prestigiosas y que
contasen con la aprobación y el beneplácito divinos. Estos santos
patronos, sus reliquias, milagros y hagiografías serán solicitados,
aupados y venerados por esas comunidades locales, pero también serán
disputados por patrias y naciones que verán de este modo reafirmada su
identidad y reconocida su antigüedad (Serrano Martin, 2019: 99)
Não com tanta frequência e veemência do primeiro sermão, o segundo também
apresenta a ideia da relíquia como um símbolo de amparo “invisível” aos moradores da Villa
de Viana, assim como a responsabilidade deles na defesa da relíquia, uma vez que mais que
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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muros e pedras, a verdearia fortaleza está nos “[..] valorosos vianezes, que são muros vivos
insuperáveis, e agora muito mais inexpugnável pela assistência de tão valoroso fronteiro, e
defensor santo Theotonio; que a todos agora nos quis honrar, aparar e defender” (Graça, 1643:
66a).
Nesses sermões, e como não poderia deixar de ser, o Novo Mosteiro também ocupa um
lugar privilegiado nas pregações. Isso se justifica, sobretudo, pelo fato de que ele substituirá o
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra na guarda da relíquia. Desta feita, ele passa a representar
o símbolo máximo das práticas religiosas de Viana de Lima, especialmente por ser um presente
de Deus.
O mesmo pontualmente aconteceu aos padres dessa congregação
religiosa os quais congregados em capítulos gerais assentaram que
nessa notável vila se fundisse esse mosteiro, havendo que nela ficava o
culto divino venerado, e eterno por ser terra do nosso Capitão o
Patriarca S. Theotonio, o qual nasceu na Comarca dessa vila, entre
Valença e Monção: e aprovou Deus este concelho, porque quis honrar
esta terra, com sua sagrada relíquia, e com este grandioso mosteiro com
sua invocação (Anjos, 1643: 37a).
Ao longo dos sermões, os pregadores reafirmam a importância do mosteiro como depositário
da relíquia do Santo. Como ocorre no sermão do terceiro dia, ele representa um divisor de águas
na história da Villa, elevando sua importância, principalmente por abrigar “[...] a sepultura
aonde vem descansar os ossos daquele tão grande santo, e servo de Deus o vigilante, o divino
Theotônio. Com isso, por mais levantada e engrandecida que a vossa vila dantes fosse, muito
mais levantada e engrandecida ficou” (Agostinho, 1643: 78a).
O encerramento oficial da festa lembrando que o quarto dia foi concedido aos participantes
para realização de diversas competições esportivas e apresentações teatrais , nos revela um
importante aspecto sobre a recepção e a colocação da relíquia no seu derradeiro local. Para além
de um acontecimento carregado de simbolismo religioso, há todo um trabalho dos responsáveis
por ela estar ali bispos, ordens religiosas, autoridades civis, entre outras. Porém os relatos das
procissões de traslados podem nos revelar, igualmente, a quão festiva foi a sua recepção, como
desvela o fragmento seguinte:
O Monteiro, como mais empenhado, parecia, nesta noite, que se
abrazava todo: porque já sem ordem, nem concerto, arrebentava em
fogo por todas as partes, despedindo dilúvios de foguetes, uns voadores
que iam buscar as estrelas, outros rasteiros, que entre tanto buscavam
os pés dos mais descuidados, dando matéria de muita festa com os
efeitos vários que faziam. Saíram por muitas diversas partes, uns
esgrimindo montantes, que aos primeiros talhos, e golpes disparavam
inumeráveis foguetes, outros brandindo lanças, que arrebentavam no
mesmo; outros jogando alabardas, que ardendo com violência incrível,
faziam temerosa vista, e parecia uma guerra a ferro e a fogo. [...]
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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Rematando-se tudo com muitos vivas ao glorioso Santo, e muitas
músicas acompanhadas de muitos instrumentos alegres, e festivais
(Mendonça, 1642: 88a-89).
5. A política nas pregações e nas festas
Seria um exagero afirmar que, nas Festas do Recebimento da Sagrada relíquia, exista um
dissimulado discurso político. Contudo ele não está ausente, uma vez que, em algumas
passagens, o texto associa a importância de São Teotônio ou sua relíquia a acontecimentos
políticos quando o santo vivia, ou ao presente da política portuguesa, principalmente a
restauração do reino, após 60 anos sob domínio filipino (1580-1640). A relação entre santos
e/ou relíquias e a sociedade civil faz parte de uma tradição cultural europeia que vem de longa
data. Ao estudar Corpo de Santos e Controle Cívico em Bolonha do século XIII ao início do
século XVI, Kerbrat afirma que o culto cívico centrado na presença material dos restos mortais
do santo e suas manifestações exige que as autoridades tenham acesso relativamente livre e
fácil a eles, inclusive com possibilidade de manipulá-los. Não obstante, as relíquias eram
guardadas por instituições religiosas, tão necessárias para fazer a mediação entre o corpo civil
e o corpo santo (Kerbrat, 1995: 166).
Em relação à Península Ibérica, especificamente no contexto do translado da relíquia de São
Teotônio, o uso político das relíquias foi uma realidade comum aos diferentes reinos. Segundo
Capelão, os Habsburgo, dinastia que governou a Espanha de 1516 a 1700, possuíam-nas como
um poder simbólico e faziam delas parte do projeto supranacional filipino. Assim, segundo a
autora, elas se constituíam em uma tentativa de edificação de uma identidade coletiva assentada
num passado cristão, o que contribuiu para que o monarca projetasse a sua imagem de rei
católico e, em última análise, consolidasse a sua autoridade (Capelão, 2022: 130).
Conforme o relato, o lançamento da pedra fundamental para a construção do mosteiro ocorreu
em agosto de 1630, e os rituais para a festa foram aprovados, em 1638, pelo último rei filipino,
Filippe III
10
(1605-1665, rei dos portugueses de 1621 a 1640). Todavia a procissão da relíquia
ocorreu em 1642, após a restauração bragantina, com D. João IV (1604-1656, rei desde 1640).
Escrito nesse contexto, o relato sobre o translado da relíquia de São Teotônio reflete esses
acontecimentos ao valorizar a história de vida do Santo e sua relação com o primeiro monarca
português. Nessa ocorrência, sua imagem, por meio da relíquia que ora se traslada, é recuperada
não somente para exaltar a pureza e a benevolência de uma pessoa santa, mas também pelas
virtudes como símbolo da nação e confessor do primeiro casal real. Refletindo a hagiografia, o
relato afirma que não somente os súditos gozavam dos seus favores, mas também o próprio rei,
em reconhecimento à sua grandeza, fez dele seu conselheiro nas guerras contra os mouros:
10
Felipe IV de Espanha.
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
67
E não foi nisso mostrou o cristianismo rei, o respeito que ao santo
tinha, mas também tomou por seu confessor, e conselheiro, e
governando-se por ele nos feitos de maior consideração, e
comunicando-lhe as vilas e cidades, que com o valor das suas armas,
determinava conquistar, das quais alcançou sempre gloriosas vitórias,
ajudado das orações, e conselho do santo Padre (Anjos, 1643: 44a).
A ideia de um santo protetor do reino se repete em vários momentos na fonte, assim como nos
sermões dirigidos aos participantes das festas, fazendo dele um verdadeiro santo guerreiro em
vida, assim como combatente invisível no presente que age por meio da relíquia. "Pois este é o
Santo, que rei da glória senhor Deus dos exércitos, em tal tempo, e ocasião das nossas guerras,
[...] , pátria sua, e nossa. E que faça a sua assistência, de armas nessa mobilíssima Villa de
Viana" (Mendonça, 1643: 66). Manifestação que se repete no sermão do padre D. Pedro de
Santo Agostinho, proferido no terceiro dia de festa, ao rememorar o seu papel na luta contra os
mouros:
[...] com tochas sempre na mão, quero dizer, com a luz resplandecente
de sua vida, de suas obras, e de os seus exemplos; senão também com
esforços de valoroso capitão, governou o povo mimoso de Deus, qual
foi sempre Português, e lhe deu a posse do reino, que hoje tem como
capitão valoroso, com as armas em suas mãos, e com pouca gente, que
consigo levava, tomou o santo a Vila de Arronches, e outros lugares
vizinhos, aos Mouros, que foram todos do real mosteiro de Coimbra
(Agostinho, 1643: 73).
De maneira mais explícita, D. Pedro de Santo Agostinho faz duras críticas àqueles que, por seus
pecados, permitiram que o reino caísse em desgraça e fosse governado, por quarenta anos, por
tiranos que prejudicaram o reino português. No entanto, graças à intervenção do poder da
relíquia de São Teotônio e de D. João IV, o “verdadeiro rei”, a paz foi restaurada. "Quem duvida
que estando esta vila, como todas as demais vilas, e cidades deste reino, perseguido, tiranizado,
em vésperas de ser todo destruído pelo inimigo [...] como foi Jerusalém e todo o reino da Judeia
pelos Caldeus, o restituiu Deus [...] ao legítimo herdeiro dom João IV" (Agostinho, 1643: 79a).
Ao encerrar o sermão D. Pedro de Santo Agostinho faz um discurso deliberadamente aberto
contra a conivência dos portugueses que, segundo ele, foram responsáveis pela perda da
liberdade e da soberania do reino português. No entanto, em face da presença da relíquia,
resgata-se o reino que outrora fora criado e mantido por Afonso Henrique com ajuda de S.
Teotonio: "[...] as vitórias que deles alcançava não só as armas, mas as orações de S. Teotonio,
por elas tivemos o Reino de Portugal ditoso" (Agostinho, 1643: 80a). Ainda segundo o sermão,
a felicidade do reino durou muitos anos, mas, por culpa de alguns, "[...] vieram sessenta anos,
em que tudo se perdeu, e ficou sem reino, e sem sacerdote", em pior estado que o reino de
Judeia no tempo de Herodes (Agostinho, 1643: 80a). Contudo, com D. João IV e com ajuda
divina, Portugal recupera suas virtudes naturais "[...] A estas tiranias, e desconsolações acudiu
Deus, como tinha prometido ao primeiro e santo Rei. Deu-nos Rei que não somente no sangue
real, represente o primeiro, mas também nas virtudes, no esforço, na prudência, no zelo a de
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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representar, e representa já [...]" (Agostinho, 1643: 80a). E conclui a destacar, mais uma vez, a
importância da relíquia para selar uma nova era que se inicia. "[...] O braço de Deus, e de Santo
Teotonio nos deram tantos anos Rei e Reino. O braço de Deus e de Santo Teotónio nos
tornarão agora a dar, ou restituir Rei e Reino, e o ão de defender, e conservar [...]" (Agostinho,
1643: 82).
Ao findar o último sermão, encerram-se também os ritos sacros da recepção da relíquia. Ainda
assim, um quarto dia foi concedido à população para participar de rias festas onde, mais uma
vez, a aristocracia se apresenta com seus trajes multicoloridos, exibe seus cavalos e expõe seus
valores; também um estudante dirige ao público um monólogo sobre Santo e destaca a situação
política do reino em várias passagens:
Quien el valiente Thebano. Que hoy em campo desafia, En favor de
Portugal.
Los Leones de Castilla?
11
. Efte es Theotonio (señores). Prodigiosa
maravilla. De aquella celeste mano, Y eterna sabidoria. [...]. Quando
libre Portugal. En Lisboa Repetia. Viva el Quarto Rey Don Iuan. Vina
el de Bragança (Mendonça, 1643: 85)
A longo do documento, o relato, os sermões, ou uma apresentação teatral, como visto acima,
recorrem a uma tradição hagiográfica e fazem de São Teotônio um ser que sempre favoreceu
as ações e vitórias militares do primeiro rei de Portugal, principalmente na batalha de Campo
de Ourique. Como destaca Capelão, relacionar o Santo com a Primeira Dinastia portuguesa e
recuperar sua memória no contexto da restauração da dinastia como elemento simbólico são
demonstrações da individualidade e da identidade de Portugal frente ao reino castelhano
(Capelão, 2022: 137). Neste sentido, a presença do Santo, materializado pela narrativa da
presença da relíquia, colocava a sociedade portuguesa sob a proteção sagrada de “líder” desde
a fundação do reino.
As narrativas prodigiosas fomentavam o culto da santidade e, por
intermédio de suas relíquias operavam-se maravilhas. Tesouros
espirituais, a função simbólica dos fragmentos aproximava o homem
comum de seu Deus. A crença na função taumatúrgica das relíquias
revela como o homem se posiciona frente ao universo sobrenatural
(Nascimento, 2023: 50).
No final da Relaçam, o autor destaca "algumas coisas notáveis que sucederam nas festas
dedicadas à recepção da relíquia do santo" (fls. 93-94), principalmente os quatro milagres
alcançados devido à presença da relíquia na Villa e a intermediação de São Teotônio. O
primeiro ocorreu quando um mancebo que estava a assistir os festejos desde o andaime
instalado para construção do mosteiro caiu e, quando todos acreditavam que tinham
despedaçado e que nem a Extrema Unção o salvaria, foi salvo após beijar a relíquia do Santo.
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Referência ao leão estampado no brasão de armas do reino de Espanha.
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O segundo milagre ocorreu quando uma Dona que estava há três dias com dores do parto foi
curada e deu à luz após colocarem a relíquia do santo sobre o seu pescoço. O terceiro ocorreu
quando um moço, devido à exposição ao sol, foi acometido por febre e frio e risco de morte;
ele foi totalmente curado quando lhe trouxeram a relíquia do santo para que a beijasse. O quarto
milagre, sentido por todos os presentes, adveio pela intervenção do Santo por atuar para que
não ocorresse qualquer transtorno ou acidente durante os dias festivos, e que se manifestou
quando da chegada da relíquia, pois, apesar de chover a cântaros, o circuito por ela percorrido
apresentava um clima calmo, agradável e sem chuva. Milagre que também ocorreu por não
registrar nenhum incidente com fogos de artifícios, salva de tiros, desordem entre os
participantes, principalmente pela presença de mascarados e forasteiros (Mendonça 1643: 92a
- 94). Ao recolher esses acontecimentos, o relato reforça a fundação fundamental daquela
relíquia: os milagres operados por ela. Sobre os traslados de relíquias Bozoky afirma que elas
sempre foram acompanhadas por milagres de curas e outras manifestações sobrenaturais, ou
seja, “sinais que demonstraram a autenticidade do poder das relíquias e, portanto, contribuíram
para a emoção criada durante a relocação das relíquias" (Bozoky, 1996: 278).
O último ritual de encerramento dedicado à recepção da relíquia ficou sob a responsabilidade
de D. Próspero, Cônego Regrante de Santo Agostinho. Em sua exaltação, realça os principais
momentos da vida de São Teotônio, a partir da fixação no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra,
e a importância desse lugar como núcleo sagrado, onde o primeiro monarca lusitano buscava
proteção divina para as vitórias, principalmente do sucesso do rei contra os muçulmanos na
batalha de Ourique, de 1139. Nessa saudação, da relíquia, fica evidente, também, a importância
religiosa do recém-fundado Mosteiro da Villa Viana como um novo lugar de proteção aos
súditos contra investidas estrangeiras, ao rei e ao reino lusitano.
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do Mosteiro de Moreira. En P. A. de Mendonça, Relaçam das festas, que a notavel villa de
Viana fez, na entrada, & recebimento da sagrada reliquia do glorioso Sancto Theotonio primeiro
prior do Real Mosteiro de Sta. Cruz de Coimbra dos Conegos Regulares de Santo Augustinho,
no seu mosteiro, que os mesmos Conegos de novo lhe edificaraõ na mesma villa de Viana (fls.
6983). Officina de Domingo Lopes Rosa.
Anjos, L. dos. (1643). Sermão do reverendo padre Luís dos Anjos. En P. A. de Mendonça,
Relaçam das festas, que a notavel villa de Viana fez, na entrada, & recebimento da sagrada
reliquia do glorioso Sancto Theotonio primeiro prior do Real Mosteiro de Sta. Cruz de Coimbra
dos Conegos Regulares de Santo Augustinho, no seu mosteiro, que os mesmos Conegos de
novo lhe edificaraõ na mesma villa de Viana (fls. 26a51). Officina de Domingo Lopes Rosa.
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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de Refoyos do Lyma. En P. A. de Mendonça, Relaçam das festas, que a notavel villa de Viana
fez, na entrada, & recebimento da sagrada reliquia do glorioso Sancto Theotonio primeiro prior
do Real Mosteiro de Sta. Cruz de Coimbra dos Conegos Regulares de Santo Augustinho, no
seu mosteiro, que os mesmos Conegos de novo lhe edificaraõ na mesma villa de Viana (fls. 54
67). Officina de Domingo Lopes Rosa.
Mendonça, P. A. de. (1643). Relaçam das festas, que a notavel villa de Viana fez, na entrada,
& recebimento da sagrada reliquia do glorioso Sancto Theotonio primeiro prior do Real
Mosteiro de Sta. Cruz de Coimbra dos Conegos Regulares de Santo Augustinho, no seu
mosteiro, que os mesmos Conegos de novo lhe edificaraõ na mesma villa de Viana. Officina de
Domingo Lopes Rosa.
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José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
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José Carlos Gimenez jcgimenez@uem.br
Graduado e mestrado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(UNESP), campus de Assis/SP, e doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná.
Atualmente é professor na Universidade Estadual de Maringá, Paraná. Tem experiência na área
de História, com ênfase em História Medieval Ibérica, atuando principalmente nos seguintes
temas: História das Instituições e História da Península Ibérica na Baixa Idade Média. Participa
do Projeto Rede de Pesquisa sobre Arte e História das Relíquias Cristãs Ibéricas, Pesquisador
do Núcleo de Estudos Mediterrânicos (UFPR); Transformações Sociais e Educação na
Antiguidade e Medievalidade (UEM) e Membro do Laboratório de Estudos do Império
Português (LEIP/UEM).
Renata Cristina de Sousa Nascimento
renatacristinanasc@gmail.com
José Carlos Gimenez e Renata Cristina Nascimento
TRASLADO DAS RELÍQUIAS DE SÃO TEOTÔNIO: FESTAS, DEVOÇÃO E POLÍTICA
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Possui doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná (2005). Realizou estágio de
pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/ 2023). Realizou estágio de
pesquisa na Universidade de Oviedo- Espanha. Realizou estágio de pós-doutorado na
Universidade do Porto (dez de 2015- 2016, com patrocínio da Capes), e na Universidade
Federal do Paraná (2012). Atualmente é professora titular da Universidade Federal de Jataí
(UFJ/ 20 horas), da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Programa de Pós- Graduação
em História- mestrado e doutorado. Linha de pesquisa: Poder e Representações) e da
Universidade Estadual de Goiás (UEG). Representante brasileira e membro titular do Comité
Internacional de Expertos del Camino de Santiago. Coordenadora da rede internacional de
pesquisa: RELICARIO. RED DE INVESTIGACIÓN SOBRE ARTE E HISTORIA DE LAS
RELIQUIAS CRISTIANAS IBÉRICAS. Idealizadora e coordenadora do grupo de pesquisa e
divulgação científica- Sacralidades Medievais.